Lucas Renato

30 de Novembro de 2025


Heitor, tu para mim és pai e excelsa mãe; és irmão e és para mim o vigoroso companheiro do meu leito. Mas agora compadece-te e fica aqui na muralha, para não fazeres órfão o teu filho e viúva a tua mulher.

Homero

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O retrato de Carolina

Carolina havia morrido dois anos antes quando Jaime, ao procurar algo nas cômodas do quarto, encontrou um retrato antigo no fundo de uma gaveta - estava escondido sob o relógio do sogro, ao lado de outras quinquilharias. Levou a foto à mesa da cozinha, pôs os óculos de leitura e aproximou-se com cuidado.

Ficou tão encantado que resolveu ligar para a filha e descrevê-la: Carolina estava sentada numa cadeira de praia à beira do mar; vestia um maiô e tinha um livro solto no colo. O fundo não se discernia bem, era apenas um borrão acinzentado. Ela sorria para o horizonte.

Ana disse que nunca a tinha visto. Conversaram mais um pouco e marcaram de almoçar no Centro.

A moldura era velha e frágil, Jaime temia quebrar algum dos entalhes. Mesmo assim, não podia deixar de tocá-la. Seguiu as curvas de madeira com a ponta dos dedos. Alisou o vidro, tocou os cabelos de Carolina, podia senti-los.

Através da foto preta e branca, via o castanho dos cabelos, mais escuros porque molhados; o maiô azul - não, não, vermelho - com bolinhas brancas. As coxas bronzeadas, a sandália enterrada na areia… Um vendedor de milho passava atrás de Jaime, gritava e gritava, competia pela atenção dos banhistas com o marulho da água, o burburinho do povo e o tráfego da avenida ao lado.

Jaime inclinou-se para a frente e segurou o braço de Ana, queria ver seu relógio. Era um Omega antigo, com uma banda vermelha e branca. A família dela era colorada? Nunca se dera conta, talvez nunca tenha perguntado. Nunca falavam de futebol.

O ponteiro marcava oito horas. Oito horas?

Escorando-se na cadeira, lembrou-se de ir ao banco. O gerente da conta o chamara para conversar sobre um empréstimo, ou algo assim. Soltou a foto e saiu de casa apressado.

Durante o trajeto de ida e volta, e até no próprio atendimento, só pôde pensar em Carolina à beira mar. Ficava tão bem de maiô… E as mãos sempre foram delicadas, desde aquela época. Quantos anos devia ter? Dezoito, talvez vinte. Foi antes ou depois de conhecê-lo? O senhor está me ouvindo? Entendeu os valores? Disse o burocrata de cabelo arrumado e óculos justos. Ah sim, sim, mas não tenho interesse. Passar bem.

Chegou em casa, pegou o retrato, afoito, e trouxe-o ao sofá. Com mãos precisas de relojoeiro, segurou delicadamente a foto e encostou-se. Analisou cada canto, decorou formas e curvas, inventou os arredores. Chegou a dar nome aos borrões do fundo - este é Marcos, dentista carrasco (desses que sente prazer em torturar o paciente), e aquela é sua esposa, Maria, menina de boa família e muito estudada. Sonhou em cursar Direito ou Sociologia, mas o pai não deixou.

Jaime tentou olhar para o horizonte junto de Carolina, mas não havia nada. Nenhum navio ao fundo, nenhuma gaivota, nenhuma nuvem. Nada. Apenas um degradê em tons de azul.

Ficou um bom tempo sentado ao lado dela quando um barulhinho começou a tocar mais pra direita, na avenida. Foi crescendo e crescendo até virar uma melodia. Primeiro viu o piano no meio da rua, no meio dos carros. Logo depois veio um tambor, tum tum tum, e começou a imaginar toda a marcha de carnaval. O piano não estava na rua, não, estava no carro alegórico. E de repente um sino, um guizo, mas tocaram só uma vez e deixaram ecoar. Pai? Ana vinha correndo, mas não estava de maiô ou biquini, estava toda vestida com a roupa da empresa. Olhe sua mãe aqui, venha cumprimentá-la.

Ana tentava arrancá-lo, queria puxá-lo para longe, afastá-lo de Carolina. Jaime lutou, mas a idade lhe deixara fraco. Foi quando acordou, e o fantástico mundo da praia de não-sei-onde se desfez: Ana derrubou o retrato, que despedaçou-se como última nota da marcha de carnaval.

Que é isso, Ana? Derrubaste o retrato!

Já é quase uma da tarde! Marcamos de almoçar, mas o senhor não atendia minhas ligações, não atendia a porta… Me assustei!

Jaime levantou-se do sofá com certa dificuldade. Ana alcançou-lhe a foto nua e foi procurar uma vassoura para varrer os cacos. Foi quando ele reparou num rabisco no verso da foto. Jaime foi à cozinha e pegou novamente os óculos de leitura.

“Com amor, Bruno”.

Lembrou-se, então, das décadas de casamento. Da frieza de Carolina.

A verdade é que Carolina não sorria, não ia à praia, não lia. A Carolina de Jaime não estava na foto, estava enterrada no mausoléu da família, abaixo da ossada do pai, ao lado dos irmãos falecidos.

Voltou ao quarto, abriu a cômoda e devolveu o retrato à gaveta. Voltou para Ana, abraçou-a e saiu para almoçar.