Lucas Renato

1 de Março de 2026


E a sua carreira finalmente tinha sido como um elefante sagrado caminhando sobre um tapete de criaturas humanas, de almas que suas patas brutais esmagavam.

Erico Verissimo

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Insônia

Apagou as luzes e correu até a cama. Tremeu de frio ao levantar as camadas de coberta, uma mais grossa que a outra. Enfiou-se rapidamente enquanto o calor de seu corpo era roubado pelo colchão e lençol. Soltou uns bafinhos e gemidos, bateu os dentes.

Ligou a TV. O jornalista relatou mais um conflito em Israel, muitos mortos. Crianças também. Desligou o aparelho e virou-se para a esquerda. Pegou o travesseiro do lado vazio da cama e o agarrou como se fosse gente. Fechou os olhos. Alguém foi ao banheiro no quarto ao lado, pôde ouvir a descarga, a água escorrendo na pia. Alguns passos, ao fundo.

Os olhos e o nariz irritaram-se com a coberta felpuda.

Na falta de movimento, seu corpo começou a sentir-se a si mesmo. Os dedos dos pés incomodaram, tentou afastá-los uns dos outros - o que é impossível. A meia áspera os contraía, mas não esquentava. O peso do edredom empurrava os pés para baixo. Desconforto em qualquer posição.

Não só dos pés, o corpo lembrou-se da própria língua. Parecia-lhe enorme, crescia e queria sair. Raspava no céu da boca, atrás dos dentes, atrás dos lábios… E, por lembrar-se dessas coisas, lembrou também de respirar manualmente.

Cansou de segurar o travesseiro, virou pro outro lado. Puxou o cabelo para trás, e um vento gelado entrou pelas costas quase aquecidas. Bufou. Ligou a televisão e deixou o controle debaixo das cobertas. O programa de viagens se passava na Espanha; mostravam um castelo bonito.

Arrastava as pernas para lá e para cá. Agora que estava quente, o frio parecia gostoso da cintura pra baixo. A cabeça criava uma pressão interna, o teto girava… Passou as mãos na testa para sentir o calor, e o frio novamente entrou pelas cobertas.

Esfregou o rosto no travesseiro umas não sei quantas vezes. O cabelo ficou entre os olhos e o travesseiro, então teve que levantar a cabeça e puxá-lo para trás. Desligou a televisão, sem paciência. Silêncio.

“Alexa, conta uma história.”

“Para habilitar a skill Hora da História, entre no aplicativo Alexa no seu dispositivo…”

“Alexa, cala a boca.”

Coçava os olhos, esfregava a mão no nariz, retorcia as pernas e os pés. Espirrou umas três vezes para cima e parou.

O êxtase da coceira inundou o corpo, os olhos lacrimejaram…

O despertador toca, e Alexa dá bom-dia em seguida - conta-lhe a temperatura, a previsão do tempo… O travesseiro babado apresentava um fino rastro de sangue, decerto do nariz. A luz entrava pelo pontilhado das persianas.

Resolveu ficar na cama mais um pouco.